Por Paula Sampaio
Surge na terra dos “rios pontes e overdrives” uma mistura de ritmos e sons que ultrapassou fronteiras, decolou para o sucesso e foi muito além dos bairros pernambucanos: “Macaxeira, Imbiribeira, Bom pastor, é o Ibura, Ipsep, Torreão, Casa Amarela, Boa Viagem, Genipapo, Bonifácio, Santo Amaro, Madalena, Boa Vista, Dois Irmãos, é o Cais do porto, é Caxangá, é Brasilit, Beberibe, CDU, Capibaribe, é o Sertão eu falei”… Chico falou e provou, fazendo eclodir o som do mangue que ganhou o Brasil e a Europa, “homens caranguejos com um pé na lama e uma antena no mundo”, como ele gostava de definir.
A história musical do Recife é a das bandas de rock dos anos 70. Mesmo visto como subversivo pelo conservadorismo político, o rock floresceu no trabalho de bandas como a lendária Ave Sangria, ela acabou dando o ingrediente roqueiro para o som de Alceu Valença nos 70, que levaria consigo para o Sudeste boa parte dos seus músicos. O paraibano Zé Ramalho, que também tocava com Alceu nessa época, foi outro dos que participaram daquela cena underground do Recife.
Aos poucos, sem repercussão dentro ou fora de Recife, o movimento rock iniciado nos anos 70 foi perdendo força – Lenine, que estreou com o grupo Flor do Cactus, foi uma de suas últimas crias. Os anos 80 foram a década perdida, mas algumas bandas, principalmente de heavy metal e punk rock, resistiram na cidade. Nessa cena, onde as informações (discos, livros, vídeos) aos poucos começavam a circular com mais facilidade, é que surgiriam as bandas fundadoras do manguebeat, Chico Science, Nação Zumbi e Mundo Livre s/a. Foi a primeira geração de rock dos anos 90 ligada no computador. Com sua ideia de fundir o funk (que ouvia nos bailes da infância) com o maracatu e cirandas dos pais, Chico acabou sendo o artífice para a formatação, junto com a Nação, do inovador som do mangue.
Com Chico Science e a Nação Zumbi, o manguebeat ganhou uma grande e rapidíssima projeção internacional, influenciando portugueses (que fundaram em Lisboa o movimento Tejo Beat) e escoceses (que criaram o Bloco Vomit, especializado em tocar sucessos de punk rock com tambores de maracatu), entre outros músicos estrangeiros. Foi um exemplo raro de invenção pop brasileira, que resistiu mesmo à morte de Chico, no carnaval de 97.
“Toda semana chega um americano ao Recife para fazer tese sobre o mangue. Eles estão vindo até para aprender a tocar. Chico virou mito, é o nosso Bob Marley. Ele era cerebral, mas popular. Graças ao mangue (e, em especial, à propaganda de Chico), artistas da música tradicional de Pernambuco, como Lia de Itamaracá, Selma do Coco e Mestre Salustiano tiveram nos últimos anos a oportunidade de gravar discos. O Ariano Suassuna (defensor ferrenho da tradição musical de Pernambuco) passou o tempo todo falando desse povo, mas ele só apareceu com o manguebeat”. Jornalista José Teles, no livro Do Frevo ao Manguebeat.
O MANGUEBEAT
O objetivo do movimento surgiu de uma metáfora idealizada por Zero Quatro, ao trabalhar com vídeos ecológicos. Como o mangueera o ecossistema biologicamente mais rico do planeta, o manguebeat precisava formar uma cena musical tão rica e diversificada como os manguezais. Devido a principal bandeira do mangue ser a diversidade, a agitação na música contaminou outras formas de expressão culturais como o cinema, a moda e as artes plásticas. O manguebeat influenciou muitas bandas de Pernambuco e doBrasil, sendo o principal motor para Recife voltar a ser um centro musical, e permanecer com esse título até o momento.
Com o surgimento de várias bandas no cenário recifense, gravadoras como Sony, Virgin e outras famosas, deram início a uma contratação de bandas que se incluíam nesse cenário mangue. Notáveis bandas do gênero manguebeat incluem Mundo Livre S/A,Mombojó, Cordel do Fogo Encantado e Nação Zumbi. Hoje em dia o cenário musical em Recife tem outra postura. Bandas e mais bandas surgem com a mesma proposta inquieta do mangue: sons experimentais e comportamento nada convencional. Mombojó, Eddie, Bonsucesso Samba Clube e outras várias, prometem fazer valer o manifesto junto com os pais do manguebeat.
E Zero Quatro diz: Achar mágico a mudança de postura dos recifenses, que antes só valorizava as coisas fora. Agora os recifenses pagam com orgulho para ver shows, festivais e valorizam as bandas locais. “É auto-estima pura”, afirma Fred. De fato antes do movimento a cena de ensaios de blocos de maracatu era restrita ao carnaval, hoje até a política e os governantes dão mais valor a questão cultura.
Vídeo: Tv Cultura
Link:http://www.youtube.com/watch?v=bjRhU5owRV0